O Outubro Rosa tem um desafio maior com o recorde de casos registrados de câncer de mama, a diminuição das consultas médicas e o aumento do consumo de álcool

A campanha de prevenção do câncer de mama (Outubro Rosa), que existe desde 1990, precisará mais do que nunca de nós médicos, profissionais de saúde e formadores de opinião para ajudar no diagnóstico precoce e na prevenção.

Levantamento divulgado pela Global Cancer Observatory revela que, no último ano, o câncer de mama foi responsável por 11,7% dos cânceres em todo o mundo, com 2,26 milhões de casos registrados, sendo a doença oncológica mais diagnosticada em 2020, superando o câncer de pulmão, que acomete homens e mulheres, diferente do câncer de mama, que acomete 99% de mulheres.

Uma pesquisa realizada pela IPEC, encomendada pela Pfizer, mostrou que 47% das mulheres entrevistadas deixaram de frequentar o ginecologista ou o mastologista durante a pandemia de COVID-19.

No Brasil, deverão ser mais de 65mil casos por ano até 2022, de acordo com o INCA, sendo que 30% deverão ter metástase, mesmo com o diagnóstico precoce.

Cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com mudanças nos hábitos de vida, como realização de atividade física regular, manutenção do peso ideal, alimentação saudável e diminuição do consumo de álcool.

O consumo de álcool em qualquer quantidade contribui para o câncer de mama, principalmente se associado ao tabagismo.

Os brasileiros estão bebendo mais e fumando menos, segundo um levantamento do IBGE, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), com dados relativos a 2019.

Mais de um quarto (26,4%) da população adulta costuma consumir bebida alcoólica uma vez ou mais por semana, um aumento de 2,5% em relação a 2013, o último ano do levantamento.

Já a população de mulheres que bebem álcool cresceu 4,1% em seis anos, enquanto o percentual dos homens ficou praticamente estável.

Ainda assim, os homens continuam bebendo mais do que as mulheres (37,1% contra 17%).

Dados mais recentes em relação à pandemia do COVID-19 mostrou que 18% dos brasileiros estão bebendo mais, segundo uma pesquisa realizada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que coletou informações de quase 45 mil participantes.

Um segundo estudo, desta vez liderado pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), confirmou o maior consumo de bebida em meio ao isolamento social com 61% relatando o consumo de álcool e 30% bebendo mais nesse período de pandemia, segundo os 3.633 entrevistados.

Nas duas pesquisas mencionadas, a justificativa para incluir bebida na rotina foi a necessidade de amenizar a tristeza, o medo, a ansiedade, o estresse e a depressão desencadeados pelo isolamento social e pela incerteza sobre o futuro.

Brasileiros com grau de instrução fundamental, estão bebendo mais que os brasileiros com graduação no ensino médio e com nível superior (21,5%, 20,4% e 18,6%, respectivamente).

Há muito tempo faz parte do senso comum a crença de que o consumo de doses baixas de álcool traz benefícios à saúde, em especial ao coração, se tomar uma taça de vinho tinto por dia, por exemplo.

Se você é do tipo que sempre prioriza o lado saudável de tudo o que consome, então nenhuma surpresa: o vinho continua sendo o campeão neste quesito.

Ele é o fermentado mais rico em polifenóis, destaque para o resveratrol, pelos seus benefícios em numerosos processos fisiológicos ativos com poderosos efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e anti carcinogênicos como, por exemplo, para o câncer de mama.

Vale saber que o que determina a quantidade desses polifenóis em um vinho é a forma como ele é feito. Na uva, esses poderosos ativos estão presentes na casca, na semente e no engaço (cabinho).

Para isso é necessário uma preparação tradicional que mantém o contato do vinho com a casca da uva, explicando porque os tintos possuem mais antioxidantes que os brancos e espumantes, que são preparados com a polpa e separados da casca.

Só para você ter uma ideia, o vinho tinto tem dez vezes mais polifenóis que o vinho branco, sendo a maior concentração de polifenóis das uvas cabernet sauvignon, malbec e syrah.

A revista científica “The Lancet” publicou um estudo que teve enorme repercussão na mídia. O trabalho em questão avaliava até que ponto o consumo de álcool em níveis moderados pode servir como proteção para algumas condições de saúde.

A definição de consumo moderado de álcool pode variar de um país para outro e deve considerar características individuais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) não existe um padrão de consumo de álcool que seja absolutamente seguro.

Os impactos do uso nocivo dessa substância levaram vários governos a adotar diretrizes que definem o que seria um consumo moderado ou de baixo risco para desenvolver problemas de saúde.

A OMS define como dose padrão 10g de etanol puro, e recomenda que homens e mulheres não excedam duas doses por dia e que se abstenham de beber pelo menos dois dias por semana.

Já a renomada instituição NIAAA – National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – estabelece como dose padrão 14g de etanol puro e orienta as mulheres a limitarem seu consumo a uma dose por dia e, os homens, a até duas doses por dia.

No entanto, o relatório de pesquisadores ingleses publicado na “The Lancet” aponta para outra conclusão: a de que “os pequenos benefícios adquiridos com o consumo baixo e moderado de bebidas alcoólicas são superados pelo risco aumentado de outros danos relacionados à saúde, incluindo o câncer”.

No entanto, é impossível concluir se esses resultados se devem ao consumo de bebidas alcoólicas ou a outras variáveis, como por exemplo diferenças de comportamento ou genética entre pessoas que bebem moderadamente e pessoas que não bebem.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como o Centers of Disease Control and Prevention (CDC), entidade vinculada ao governo norte-americano e a Health Promotion Agency, entidade neozelandesa, mantém a mesma posição do estudo afirmando que, embora estudos anteriores tenham indicado que o consumo moderado de álcool traz benefícios protetores à saúde (por exemplo, redução do risco de doença cardíaca), estudos recentes mostram que isso pode não ser verdade.

Segundo o estudo, consumir apenas uma dose de bebida alcoólica por dia aumentou o risco de desenvolver problemas de saúde relacionados ao álcool em 0,5% em relação à abstenção, enquanto beber cinco doses por dia levou a um aumento de 37% no risco.

Quem insiste no consumo diário de bebida alcoólica deve ter cuidado redobrado, uma vez que beber frequentemente (mais do que seis dias por mês) pode deixar muita gente tolerante ao álcool.

Num primeiro momento, sabe-se que uma taça de vinho ou um copo de cerveja pode promover relaxamento, mas ao exagerar as pessoas se tornam mais vulneráveis ao efeito rebote, com níveis até mais acentuados de tristeza ou depressão.

Vale dizer que uma única dose pode ser o suficiente para provocar alterações físicas e mentais em quem bebe, como alerta a OMS para os seguintes problemas:

  • Dependência
  • Baixa imunológica com aumento do risco de infecções bacterianas e virais
  • Diminuição dos reflexos (por isso a combinação álcool e volante é desastrosa)
  • Desencadeia transtornos psicológicos
  • Contribui para episódios de violência física (doméstica)
  • Piora a qualidade do sono
  • Reduz a fertilidade
  • Pior controle da hipertensão arterial
  • Pode provocar cirrose, câncer, hepatites

Mas, como é praticamente impossível acabar com a ingestão de álcool no mundo, principalmente em momentos de incerteza como este que estamos vivendo na pandemia da COVID-19, estipularam o que seria uma dose de baixo risco.

A partir de referências científicas e consultas a sites especializados em diferentes tipos de bebida, e levando em conta os volumes e teores alcoólicos mais praticados no Brasil, o CISA considera que uma dose padrão corresponde a 14g de etanol puro no contexto brasileiro.

– 1 dose de bebida (14 gramas de álcool puro) corresponde a 350ml de cerveja (5% álcool), 150ml de vinho (12% álcool) ou 45ml de destilado (40% de álcool)

– 1 lata de cerveja 17 gramas, 1 copo de chope 10 gramas, 1 taça de vinho 10 gramas, 1 dose de destilado 25 gramas

O organismo demora cerca de uma hora e meia a duas horas para eliminar o efeito dos 30 gramas de álcool. Seria um pouco mais seguro se o indivíduo conseguisse demorar esse tempo entre uma dose e outra, principalmente se pretende dirigir.

Por que o efeito do álcool é pior em mulheres e tem provocado mais complicações?

No Brasil, mulheres, jovens e idosos estão bebendo mais. Estes grupos são os mais vulneráveis aos efeitos do álcool.

Segundo o DATASUS, houve uma diminuição per capita em 11% entre 2010 e 2016 no Brasil no consumo de álcool.

Em contrapartida, temos mais internações de mulheres, idosos e adolescentes neste período.

As internações de homens caíram e a de mulheres aumentaram, inclusive em relação aos óbitos – 4% contra 15%.

Mudança no estilo de vida, aumento do poder aquisitivo e a dupla jornada de trabalho podem explicar estas estatísticas.

A igualdade de gênero é uma coisa positiva, mas temos diferenças fisiológicas entre o homem e a mulher.

A mulher tem uma menor área corpórea, menor quantidade de água no organismo e menos enzimas, deixando o álcool mais tempo na corrente sanguínea e demorando mais para ser metabolizado.

A OMS publicou uma lista de recomendações para que as pessoas lidem melhor com o consumo de álcool durante a pandemia.

  • Evite o consumo de bebida alcoólica ou diminua a quantidade e a frequência
  • Procure não estocar bebidas em casa. Dificultar o acesso ajuda a diminuir o consumo
  • Não é indicado beber para aliviar medo, ansiedade e estresse
  • Não misture álcool com medicamentos
  • Em vez de beber para passar o tempo, opte por praticar exercícios físicos
  • Converse com as crianças e os adolescentes sobre os prejuízos do álcool
  • Procure ajuda se perceber que seu consumo, ou de algum amigo ou familiar, saiu do controle

É importante que as mulheres retomem suas vidas e consultas médicas neste momento em que caminhamos para um novo normal, que vai exigir, mais do que nunca, resiliência (capacidade de se adaptar) e equilíbrio físico e mental.

Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular fertilidade e menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

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