Este processo doloroso começa na adolescência, período caracterizado por mudanças biopsicossociais, onde definir o que é normal do anormal é difícil

É muito comum nos depararmos com mulheres banalizando os sintomas menstruais, como cólicas, iguais aos de suas irmãs, mães e avós, e médicos negligenciando ou subtratando estes sintomas esperando que melhore com a idade, gestação e parto.  

A cólica menstrual acomete mais de 50% das mulheres em idade fértil, mas será que pode ser considerada como normal?

Na medicina, parece razoável entender “normal” em função das distribuições gaussianas, ou seja, distribuídas de acordo com a conhecida curva de Gauss em forma de sino, apesar de termos estudiosos contrários a essa ideia.

Quando isto ocorre, indivíduos normais são aqueles cujos fatores tenham índices situados no intervalo (M-s, M+s), onde M é a média e s o desvio padrão das medidas. Este intervalo abrange cerca de 68% dos indivíduos considerados.

Em um estudo realizado com 1.051 adolescentes entre 16 e 18 anos em 2008 sobre a experiência menstrual, foi demonstrado que 94% destas adolescentes apresentavam dor, sendo 21% com intensidade severa. 

Neste estudo, 71,4% das adolescentes acreditavam que a dor era normal e apenas 26,9% acreditavam que tinha algo errado, com apenas 33% procurando ajuda médica.

Este processo doloroso começa na adolescência, período da vida caracterizado por mudanças biopsicossociais, onde definir o que é normal do anormal é extremamente difícil.

De acordo com a International Association for the Study of Pain (2019), a dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, causada por uma lesão tecidual real ou potencial, processados pelo cérebro que pode estar correlacionada com processo inflamatório, dor e alterações psicológicas. 

Todos percebem, no dia a dia, que aquela adolescente em um dia nublado, frio, precisando estudar, trabalhar, vai apresentar muito mais dor menstrual em comparação a um final de semana ensolarado com churrasco e festas.

A intensidade da dor pode ser analisada através do uso de uma escala analógica visual ou de questionários de qualidade de vida, que nos ajudam a afastar essas variáveis.

Por ser um elemento de alerta, a dor capacita o indivíduo a detectar estímulos físicos, químicos e nocivos, prestes a causar ou que já tenham causado lesões, não devendo nunca ser banalizada para que uma dor aguda (dor intensa que dura um tempo relativamente curto, inferior a 48 horas) não vire dor crônica (dor que dura um período maior de tempo, geralmente superior a 3-6 meses). 

Qualquer dor, seja ela aguda ou crônica, de causa conhecida ou desconhecida, varia de pessoa para pessoa, sendo influenciada por fatores culturais, étnicos, sociais e ambientais. 

É comum que uma pessoa que sofre de dor menstrual severa não fale sobre isso ao seu médico, principalmente quando possui histórico de cólicas menstruais em familiares (mãe, irmã, avó….).

Infelizmente, percebo que médicos também acabam banalizando esses sintomas menstruais de dor, quando são relatados pelas pacientes gerando um retardo diagnóstico ou um subtratamento que impactam na qualidade de vida da mulher.

COMO ENTENDER O QUE CAUSA E ALIVIA AS CÓLICAS MENSTRUAIS?

O nosso objetivo inicial é chamar atenção para aquelas cólicas invalidantes que não são normais!

As cólicas menstruais podem ser classificadas de várias formas:

Elas são classificadas em Tipo 0, quando a mulher não precisa utilizar medicação para dor; Tipo 1, quando utiliza medicação para dor e apresenta alívio completo; Tipo 2, quando apresenta alívio parcial e Tipo 3, considerada invalidante, quando não ocorre nenhum alívio com uso de analgésicos, inclusive opióides, levando-a a procurar serviços de saúde, absenteísmo, licença médica e baixa produtividade na escola ou no trabalho.

Elas são “primárias” ou “secundárias”, quando o seu início está relacionado à menarca (primeira menstruação). 

A dismenorréia primária, palavra clínica para menstruações dolorosas, é a dor que tem início desde a menarca sendo geralmente decorrente de alteração hormonal.

Dismenorréia secundária é a dor geralmente decorrente de uma causa física, iniciando-se alguns meses ou anos após a menarca.

Cólicas menstruais são provavelmente causadas por um excesso de prostaglandinas – compostos semelhantes a hormônios que são liberados do revestimento uterino (o endométrio) durante a preparação para a sua eliminação, em especial diante de um quadro inflamatório.

As prostaglandinas ajudam o útero a contrair e relaxar, de modo que o endométrio possa descamar e ser eliminado através da menstruação. 

Elas são uma parte necessária do processo, mas em excesso, causam dor se o útero se contrair fortemente, pois durante a contração o fluxo sanguíneo é reduzido e o suprimento de oxigênio para o tecido muscular do útero diminui, causando dor.

Em relação ao período menstrual, as cólicas podem ser pré-menstruais, intermenstruais ou pós-menstruais, podendo em casos selecionados durar todos os 3 períodos.

Neste contexto, as cólicas pré-menstruais começam antes do início do sangramento, estando mais relacionadas à existência de um processo inflamatório (dismenorreia secundária), diferente daquelas que têm início com o fluxo menstrual, relacionadas a sangramentos intensos (muitos coágulos) e/ou de longa duração (maior que 3 dias).

Existem outros fatores capazes de influenciar, como hábitos de vida (tipo de dieta, IMC, tabagismo e consumo de álcool), idade da menarca e tipo de ciclo, como os irregulares e anovulatórios, pelo fato de não produzirem o hormônio progesterona, que além de modular a dor, tem ação anti-inflamatória. 

A inflamação também tem sido associada ao agravamento de outros sintomas pré-menstruais, incluindo alterações do humor.

É fundamental afastar a Endometriose (presença de endométrio, tecido que reveste a cavidade uterina, fora do útero), uma doença inflamatória crônica e evolutiva, que acomete uma em cada dez mulheres em idade fértil. 

Você certamente tem familiaridade com as cólicas menstruais, mas não imagina que elas são sentidas na pelve, no abdômen, nas costas ou nas coxas em função das estruturas oca (intestino, útero, bexiga, ureter) que muda de forma dilatando e contraindo devido aos estímulos das prostaglandinas.

 

COMO FAÇO PARA ALIVIAR AS CÓLICAS MENSTRUAIS?

Todos os métodos de alívio das cólicas tentam reduzir a inflamação, limitar a produção de prostaglandina, bloquear a dor, aumentar o fluxo de sangue uterino, diminuir o fluxo intenso e tratar ou controlar uma doença subjacente, como a endometriose.

Os métodos de alívio das cólicas que se pode tentar (de preferência com orientação de profissionais de saúde) incluem:

  • Medicamentos anti-inflamatórios (ibuprofeno, ácido mefenâmico, piroxicam,…)
  • Calor (bolsas de água quente); nunca desmereça a bolsa de água quente que sua avó usava. O calor é um método simples, testado e comprovado, capaz de aliviar a dor das cólicas menstruais, além de ser barato e não ter efeitos colaterais.
  • Estimulação dos nervos transcutâneos (TENS), também é um tratamento aprovado para cólicas menstruais. Ele consiste de um pequeno aparelho que fornece corrente elétrica de baixa voltagem à pele, possivelmente aumentando o limiar de dor e estimulando a liberação de endorfinas naturais do corpo.
  • Mudanças na alimentação (evitar alimentos inflamatórios – FODMAP).
  • Apesar da suplementação ser menos estabelecida, a reposição  do magnésio pode ser eficaz na redução das cólicas menstruais a longo prazo, assim como a reposição do zinco, gengibre, vitamina E, vitamina B6, vitamina D e o uso por mais de 3 meses de óleo de peixe.
  • O alívio do estresse pode ajudar a amenizar as cólicas menstruais em algumas pessoas. O estresse durante a fase folicular (a primeira parte do ciclo) pode ter maior probabilidade de causar uma menstruação dolorosa, do que o estresse na fase lútea (a segunda parte do ciclo).
  • Parar de fumar. O fumo passivo também pode aumentar as cólicas menstruais.
  • Realizar atividade física aeróbica, uma vez que uma meta-análise de 11 estudos descobriu que atividades aeróbicas, alongamentos e ioga, ajudam a diminuir a intensidade da dor menstrual e também pode encurtar sua duração. O exercício físico também pode ajudar na redução do estresse, o que pode contribuir para diminuir a dor. 
  • A prática sexual e o orgasmos podem ajudar no alívio das cólicas menstruais. Não se esquecer que a masturbação pode ser uma ferramenta útil.

Maior autocuidado, maior autoconhecimento. Falar sobre suas cólicas com os pais ou responsáveis, amigos ou profissionais de saúde, parece trazer muito conforto para as pessoas. 

De um modo geral, não há dúvidas de que a dor é muitas vezes uma experiência traumática com repercussões na personalidade da paciente.

Não deixe de conversar com seu ginecologista se identificar qualquer anormalidade na sua menstruação.

Gustavo Safe