Síndrome metabólica, conhecer para prevenir

Síndrome metabólica, conhecer para prevenir

Resistência à insulina e síndrome metabólica, conhecer para prevenir

A resistência à insulina (RI) é o principal vilão da síndrome metabólica que deve ser encarada como um problema de saúde pública. 

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) representa um dos problemas da RI que podem provocar infertilidade, gravidez de alto risco e problemas cardiovasculares ao longo da vida da mulher.

A resistência à insulina não é uma doença e sim uma condição que junto a hiperinsulinemia é responsável por manifestações clínicas decorrente da deterioração da resposta aos efeitos fisiológicos da insulina sobre o metabolismo da glicose, dos lipídeos e proteínas e do endotélio vascular. 

O termo RI não é fácil de ser definido, mas de uma forma simplista representa uma menor resposta biológica do que a esperada para uma dada concentração de insulina. 

O emprego mais frequente do termo RI se aplica ao metabolismo da glicose e para isto, dois parâmetros são considerados: o nível de glicose circulante no estado de equilíbrio dinâmico e as concentrações de insulina. 

Nos estágios iniciais da resistência à insulina, há um aumento compensatório das concentrações do hormônio. 

O excesso de insulina compensa a sua queda nos tecidos de maior resistência embora induza a um aumento nos tecidos com sensibilidade normal ou minimamente afetada. 

Assim, o aumento de algumas funções mediadas pela insulina, paralelamente à hipofunção de outras, resulta em manifestações clínicas e sequelas que constituem a síndrome de resistência à insulina.

Conceito histórico

Em 1923, Kylin descreveu a ocorrência conjunta de hipertensão, hiperglicemia e gota como uma síndrome. Subsequentemente, muitas outras anormalidades metabólicas foram associadas à mesma, incluindo obesidade, microalbuminúria e anormalidades na fibrinólise e na coagulação. 

Já em 1948, Himsworth demonstrou que pacientes com diabetes eram “invisíveis à insulina”, dividindo eles em sensíveis e insensíveis à insulina.

Em 1988, a Organização Mundial de Saúde propôs uma definição única para a síndrome, tendo escolhido denomina-la síndrome metabólica (SM), em detrimento dos termos mais conhecidos.

Não temos um conceito reconhecido internacionalmente, mas uma definição da síndrome deve incluir dois ou mais dos seguintes critérios:

  • Intolerância à glicose, ou Diabetes Mellitus;
  • Elevação da pressão arterial;
  • Hipertrigliceridemia e baixos níveis de colesterol HDL;
  • Resistência à insulina;
  • Obesidade central;
  • Hiperuricemia.

São problemas cada vez mais prevalentes que se multiplicam como uma bola de neve que não param de crescer mas precisam ser combatidos ou amenizados.

A prática regular de exercícios físicos aeróbicos (20 a 40 minutos, 3 vezes por semana), a adoção de dieta balanceada e a manutenção do peso ideal (IMC entre 20 e 25) evitam o aparecimento dos elementos da SM e constituem as primeiras medidas a serem adotadas.

Infelizmente fazer atividade física regular e ter uma dieta balanceada não garantem um IMC ideal, mas qualquer perda de peso, até mesmo 10% do peso corporal já são suficientes para reverter grande parte das alterações metabólicas.

Uma vez que sabemos que a RI é a principal causa do problema, me pergunto se o uso de alguma medicação capaz de atuar no receptor de insulina não seria a solução. 

A RI nos tecidos periféricos, sobretudo em músculos e no tecido adiposo, é um fator determinante na etiopatogenia do Diabetes sendo uma alteração primordial em 92% dos pacientes diabéticos. 

Neste caso, quando o problema principal é o risco herdado familiar de desenvolver o diabetes parece sensato a utilização de medicamentos que diminuem ou evitam este risco.

Infelizmente as medicações recomendadas apresentam efeitos colaterais e devem ser utilizadas por longos períodos e por isso muitas vezes evitadas.

Quais são os sintomas da resistência à insulina?

Adiciona-se ao fato de a resistência à insulina raramente provocar sintomas, salvo quando esse desequilíbrio for muito grande, aparecendo um tipo de doença de pele caracterizado por pigmentações marrons, parecidas com sujeiras, em especial na região do pescoço (Acantose Nigricans).

A RI pode ser uma anormalidade no pré-receptor, receptor ou pós-receptor. 

A insulina exerce suas funções conjuntamente com o IGF-I e o fosfatidilinositol quinase 3 nos receptores celulares que determina a ativação de algumas enzimas e a inativação de outras.

Em uma segunda etapa, seja por disfunção, seja por superação da capacidade normal das células beta, ocorre redução da secreção pancreática de insulina. 

Tal fato manifesta-se inicialmente como intolerância à glicose com aumento da glicemia pós-prandial e, em seguida, no jejum, à medida que a insuficiência progride rumo ao Diabetes Mellitus.

A tendência genética, a obesidade, o aumento da gordura visceral abdominal e a dieta são os principais fatores no desenvolvimento do RI.

Dentre os fatores que influenciam a ação da insulina, o peso corporal é responsável por 30% da ação da insulina em indivíduos normais independente do IMC.

O condicionamento físico (VO2max.:) também apresenta uma forte correlação entre sua redução (VO2max baixo) e uma queda na sensibilidade à insulina, sendo responsável por 10 a 15% da ação da insulina em pessoas normais. 

Já o baixo peso no nascimento e no 1o ano de vida também estão relacionados ao desenvolvimento subsequente de RI.

A proteína do fígado SHBG, que transporta a testosterona, determinando o nível da forma livre ou biologicamente ativa do hormônio, é um marcador do estado androgênico na mulher e se correlaciona diretamente com a sensibilidade à insulina e negativamente com a insulina plasmática. 

O oposto ocorre no homem onde os níveis baixos de testosterona estão associados com obesidade abdominal, tendo-se demonstrado que a quantidade de gordura intra-abdominal correlaciona-se intensa e negativamente com os níveis plasmáticos de testosterona total e livre. 

Paradoxalmente, o excesso de testosterona nos homens pode também causar RI. 

A dieta com porcentagens elevadas de gordura saturada aumentam a adiposidade com o passar do tempo.

Os adoçantes podem favorecer o quadro de RI com ganho de gordura no fígado, aumento de peso e a instalação de um quadro inflamatório.

Com o envelhecimento há um pequeno aumento na adiposidade na região abdominal, sendo de cerca de 4 kg em indivíduos não obesos e 15 kg naqueles obesos com risco desenvolver diabetes melittus.

A hereditariedade influencia em 25 a 50% a ação da insulina em parentes de primeiro grau de diabéticos do tipo 2. 

Estudos em gêmeos idênticos mostraram que o fenótipo de intolerância à glicose tem uma influência genética de 61% enquanto o ambiental (estilo de vida) de  39%, ao passo que o diabetes do tipo 2 tem uma influência genética de 26% e ambiental de 74%.

Entre os diversos diabetogenes descritos, os seguintes teriam um papel significativo na RI: 

  • Substrato-1 do receptor de insulina (SRI-1: insulin receptor substrate-1). Descreveu-se uma mutação no códon 972 do SRI-1 que estaria associada com a RI e baixo peso ao nascer. 
  • Proteína ligante-2 de ácidos graxos (FABP-2: fatty acid binding protein-2), relacionada com a captação e transporte de ácidos graxos de cadeia longa.
  • Gene da síntese do glicogênio, que se verificou estar associado com a RI. 
  • Gene relacionado com a obesidade como o gene  que codifica a leptina, secretada pelos adipócitos.
  • Gene do receptor b-3 adrenérgico, que poderia ser um candidato para RI na obesidade visceral.

A Resistência à Insulina é um problema muito comum nas mulheres e está sempre associado a certas condições de saúde que dificultam saber quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Como exemplo temos a obesidade ou excesso de gordura na região da barriga,o sedentarismo, o ovário policístico (este distúrbio hormonal feminino pode provocar irregularidade menstrual, excesso de pelos, acne e obesidade), a esteatose hepática (trata-se de um acúmulo de gordura no fígado, que nos casos mais avançados pode causar dor, fraqueza e perda de apetite) e o diabetes tipo 2.

Como é realizado o diagnóstico?

O diagnóstico da RI pode ser feito através do Clamp Euglicêmico Hiperinsulinêmico, da Prova de Supressão da Insulina, do Teste de Tolerância à Glicose Endovenosa com Coletas Múltiplas com Modelo Matemático Mínimo, do Teste de Tolerância à Insulina e das medidas da glicemia e insulinemia basal como é feito o índice de HOMA IR e HOMA BETA que através de um cálculo fundamentado na dosagem em jejum da insulina e da glicose.

Uma vez realizado o diagnóstico de IR ou diante de critérios da Síndrome metabólica, medidas preventivas e não-farmacológicas como o exercício físico aeróbico, uma dieta pobre em gorduras e rica em fibras e carboidratos complexos pode melhorar a ação da insulina. 

A perda de peso induz a uma queda na pressão arterial (PA) uma vez que a cada 1% de queda no peso corporal há, em média, queda de 1 mmHg na pressão sistólica e de 2 mmHg na pressão diastólica. 

Terapia anti-hipertensiva, diminuição da ingestão de álcool, sal e gordura saturada também produzem queda da PA, independentemente do emagrecimento. 

A perda de peso também melhora o perfil lipídico. Uma perda de 10 kg pode acarretar queda de 10% no colesterol total, 15% no colesterol LDL, 30% nos triglicérides e aumento de 8% no colesterol HDL.

Para diminuir a incidência de doença microvascular (retinopatia, neuropatia e nefropatia), o controle glicêmico deve ser rigoroso. A queda do nível ideal de hemoglobina glicosilada em 1% está associada à redução na taxa de complicações em até 22%. 

As complicações macrovasculares (infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e amputação) também diminui com o controle glicêmico rigoroso.

Em pacientes com síndrome metabólica, o anti-hiperglicemiante oral de primeira escolha é a Metformina que não leva ao ganho de peso e nem à hipoglicemia.

É o agente ideal para pacientes obesos e dislipidemicos  com funções renal e hepática normais.

Esse agente leva à diminuição na produção hepática de glicose e ao aumento da captação de glicose pelo músculo, reduzindo os valores da glicose em jejum com redução dos níveis de triglicérides e colesterol .

As sulfoniluréias estimulam a liberação pancreática de insulina, mas levam ao ganho de peso e a episódios de hipoglicemia. 

A insulina também pode ser usada para controlar os níveis glicêmicos. Efeitos indesejáveis do seu uso incluem ganho de peso e episódios de hipoglicemia mais comuns do que com o uso de sulfoniluréias.

As drogas supracitadas podem e devem ser associadas quando necessário, visando o melhor controle glicêmico. 

Inositol é um carboidrato encontrado em seu corpo, assim como em suplementos alimentares e dietéticos, eles são capazes de manter as células saudáveis, regular a concentração do íon cálcio dentro das células, ajudar no tratamento da diabetes, reduzir os níveis de colesterol no sangue, queimar as gorduras e ajudar no tratamento de algumas doenças.

O mio-inositol é uma isoforma do grupo do inositol que pertence ao complexo da vitamina B, um suplemento alimentar isento de efeitos colaterais nas doses recomendadas que atua a nível intra-celular facilitando a entrada da glicose na célula por um processo de sensibilização dos receptores de insulina.

Ele foi isolado por cientistas que começaram a utilizá-lo em pacientes  com SOP e RI. 89% das pacientes, após um período de 3 a 6 meses, apresentaram uma redução dos microcistos nos ovários com regulação do ciclo menstrual e ovulação.

Ele também atua nos neurotransmissores cerebrais, estimula a produção de serotonina podendo melhorar a ansiedade e a depressão.

O inositol é um composto promissor que com dose baixas de 4 gramas por dia é capaz de melhorar vários aspectos da função reprodutiva, regularizar o ciclo menstrual, ajudando no controle da diabetes gestacional e da síndrome metabólica.

Pesquisas futuras podem identificar outros efeitos importantes dessa molécula que está revolucionando o tratamento da RI.

A síndrome metabólica é uma afecção complexa. Seus múltiplos componentes, como diabetes, obesidade, hipertensão, dislipidemia, entre outros, são muitas vezes reconhecidos e tratados como doenças isoladas. 

A associação dos componentes deve ser reconhecida assim como as suas manifestações devem ser tratadas conjuntamente.

Leia também: Medicina de precisão, uma ciência exata, biológica ou humana?

Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular Fertilidade e Menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

Se você tem dúvidas ou quer sugerir temas para a coluna, envie e-mail para gustavo_safe@yahoo.com

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Medicina de precisão, uma ciência exata, biológica ou humana?

Medicina de precisão, uma ciência exata, biológica ou humana?

(Imagem:Canva)

Medicina de precisão, uma ciência exata, biológica ou humana?

A medicina de precisão (MP) prevê que cada pessoa merece receber um tratamento único e individualizado, que respeite suas características genéticas, biológicas e as epigenéticas (influências nas expressões dos genes pelo ambiente e por fatores como estilo de vida)

A MP tem a predição, a prevenção e a personalização como pilares principais que a tornam mais humanizada, pois o foco passa a ser no paciente, no ser humano.

Ela busca compreender os aspectos genéticos que tornam cada indivíduo único, aliando os dados já convencionalmente utilizados para diagnóstico e tratamento.

Os seres humanos gostam de categorizar e nomear tudo que nos cerca e cientificamente dividem as áreas do conhecimento em três grandes áreas como exatas, humanas e biológicas.

Na atualidade, temos uma integração entre estas três áreas que não precisam ser distintas.

Assim, o conceito de que as ciências humanas estudam o homem e sua tendência comportamental e as ciências biológicas estudam o homem e sua composição química precisa evoluir.

A medicina nunca foi uma ciência exata como aquelas que usam a matemática embora cada vez mais exista uma integração da matemática tentando diminuir a subjetividade e aumentar a precisão sem deixar de lado o contexto humano.

Hipócrates colocou em seus manuscritos  que o segredo da medicina consistia em juntar a doença, o doente e o médico, idealizando naquela época a medicina que deve ser realizada hoje.

A conjunção da visão antiga de se tratar apenas doenças com a visão atual de focar mais no doente com abordagens com médicos multidisciplinares, visa garantir intervenções muito mais eficientes, precisas e livres de erros.

Apesar do desenho e implementação de ensaios clínicos cada vez mais precisos ao longo da história com utilização de placebo, estudos duplo-cego randomizados, existe uma variabilidade de resposta entre os indivíduos que não pode ser explicada unicamente por variações de idade, estado nutricional, ambiente ou outros fatores comumente analisados. 

Na predição os testes genéticos (painéis genéticos) analisam genes relacionados a uma ou mais condições específicas, com o objetivo de ajudar a definir eventual risco de apresentar ou ser acometido por alguma doença.

Como é realizado o teste genético?

O teste é feito em uma pequena amostra de líquido corporal ou tecido, geralmente sangue, mas, às vezes, saliva, células internas da bochecha, pele ou líquido amniótico.  Em seguida a amostra é enviada para um laboratório especializado em testes genéticos. 

De acordo com o National Institutes of Health (NIH), em 2017 já existiam mais de 50 mil testes genéticos para 10 mil condições clínicas. 

Nesse mesmo ano, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) estimava o surgimento de dois a três novos testes por semana. 

No Brasil o Hospital Albert Einstein possui o PREDICTA que atualmente é capaz de estudar 147 ou 563 genes com acompanhamento anual durante 5 anos pelo geneticista da instituição.

Os dados do genoma e das alterações gênicas podem ser utilizados na prevenção e  na intervenção médica com a ajuda da Inteligência Artificial. 

Na prevenção, o conhecimento dos riscos vai ajudar a elaborar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce muito antes da doença manifestar sintomas clínicos visíveis. 

Um ótimo exemplo é a pesquisa da mutação do gene BRCA1 e BRCA2 que predispõe principalmente, ao câncer de mama e ovário.

A atriz Angelina Jolie quando descobriu que tinha uma mutação genética no gene BRCA-1 e Brca-2 decidiu retirar as duas mamas e, algum tempo depois, os dois ovaries, gerando muitas polêmicas na época

Do ponto de vista do tratamento, a personalização permite a escolha de drogas que minimizem efeitos colaterais e que produzam os melhores resultados de forma individualizada e não global.

A farmacogenética (farmacogenômica) nasceu da combinação das áreas de genética, bioquímica e farmacologia e trouxe evidências da relação causal entre o genótipo e a resposta a drogas, indicando padrões de variações fenotípicas de grande relevância clínica. 

Estes testes permitem a avaliação do potencial de resposta da terapia de escolha a determinada doença, podendo orientar a escolha terapêutica ideal para diversos tipos de câncer.

Em alguns casos, o conhecimento do nome e sobrenome do câncer permite a criação de imunoterápicos e vacinas.

Os EUA se destacam pela velocidade de produção e de disponibilização de produtos e serviços de MP no mercado.  Segundo a Personalized Medicine Coalition, o número de drogas, tratamentos e diagnósticos personalizados disponíveis passaram de 13 em 2006 para 113 em 2014. 

No Brasil, obviamente, as coisas são um pouco mais difíceis. Sem grandes investimentos do governo federal em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, a medicina de precisão ainda caminha lentamente, e há pouco material bibliográfico sobre o assunto.

Entre os fatos mais relevantes em nosso país, destacam-se a criação da Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed) em 2015, uma iniciativa que envolve instituições de ensino e pesquisa públicas do estado de São Paulo. 

Em 2017 foi criada a Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão.

Um dos esforços governamentais também na área foi o Projeto Genomas Raros, realizado em parceria com o Hospital Albert Einstein com o objetivo de sequenciar genomas completos de indivíduos brasileiros com doenças raras de suposta base genética e risco hereditário de câncer. 

A combinação de tecnologia e conhecimento adquirido vem modificando a forma de atuação da medicina ao longo dos anos, mas quando se trata de uma pandemia, ou de uma doença grave capaz de acometer milhões de pessoas, não há como fugir dos testes em massa

Vimos isso acontecer nos últimos meses, quando laboratórios de diferentes países começaram a testar suas fórmulas em grupos cada vez maiores de voluntários.

Mas, para outros problemas de saúde, incluindo diversos tipos de câncer, doenças autoimunes e neurodegenerativas, o tratamento diferenciado da medicina de precisão pode fazer uma grande diferença. 

Quem mais tem a ganhar, contudo, são os pacientes. Com métodos humanizados, acompanhamento médico mais próximo e atenção aos detalhes únicos do organismo de cada pessoa, a medicina de precisão consegue oferecer tratamentos mais eficientes (por serem personalizados), sem prejudicar a qualidade de vida do paciente (por apresentarem menos efeitos colaterais).

Isso também traz benefícios para o profissional da saúde, que pode focar mais no paciente, elaborando diagnósticos mais precisos e detalhados, pois estudando melhor o  caso, o médico pode inclusive conhecer mais sobre uma doença.

Embora a MP seja um grande avanço na forma com que a saúde humana é tratada, ela não deve representar uma quebra de paradigma total. 

É uma metodologia que demanda tempo e investimentos para funcionar, e o tratamento diferenciado também tende a ter um custo mais elevado para o paciente  ficando restrita à uma parcela mais abastada da população, que pode arcar com os custos dos tratamentos personalizados que no momento não são contemplados pelos planos de saúde e pelo SUS.

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Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular Fertilidade e Menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

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Novas tecnologias na medicina

Novas tecnologias na medicina

A inteligência artificial na medicina, a robótica e atelemedicina estão mudando o panorama dos serviços médicos.

A inteligência artificial na medicina e na história

A Inteligência Artificial na medicina consiste no uso de computadores que, analisando um grande volume de dados e seguindo algoritmos definidos por especialistas, são capazes de propor soluções aos problemas médicos e ajudar os serviços de saúde.

Apesar da IA ter o potencial de melhorar quase todos os aspectos, muitos médicos ainda são céticos sobre a integração da IA nas suas práticas do dia-a-dia com medo de que as mudanças possam resultar não só no fim da relação médico-paciente mas na substituição da mão de obra médica.

Algumas especialidades de fato serão substituídas ou não mais reconhecidas num futuro próximo, enquanto outras serão renovadas ou criadas com a digitalização da medicina.

Neste momento temos eventos, treinamentos,  simpósios e cursos como o 1o. Simpósio de Inteligência Digital para médicos do Brasil ou o Curso de Ferramentas Digitais na Medicina que estão sendo ofertados.

A humanidade sonha com objetos dotados de certa inteligência, capazes de executar ações complexas e de pensar.

Contudo, a ideia de inteligência artificial como conhecemos hoje parece ter nascido na década de 40, quando Warren McCulloch e Walter Pitts abordaram, em texto, estruturas artificiais que imitam o sistema nervoso humano.

Posteriormente, o matemático Alan Turing projetou uma dinâmica que marcou a filosofia da inteligência de uma máquina – o famoso teste de Turing. Neste experimento, um humano e um computador deveriam responder, por escrito, a perguntas de uma pessoa, que por sua vez tentaria identificar qual delas era a máquina.

Outro fato marcante se deu em 1964, com a invenção do primeiro chatbot, um programa de computador que tenta simular um ser humano na conversação com as pessoas, de tal forma que as pessoas tenham a impressão de estar conversando com outra pessoa e não com um programa de computador. 

Batizado de Eliza, tratava-se de um algoritmo e um conjuntos de palavras-chave que lhe davam a capacidade de imitar as respostas de psicanalistas, já demonstrando uma das várias possibilidades da aplicação da IA na saúde.

A IA passou por um período de descrença e frustração até que a capacidade de processamento dos computadores fosse otimizada no início do século 21 juntamente com a popularização da internet.

Em 2011, a IBM concebeu o supercomputador Watson, fruto de tecnologia que usa redes neurais artificiais para armazenar milhões de informações em formato de livros, artigos científicos e prontuários de pacientes, tornando-se uma importante fonte de dados sobre oncologia.

Também a Google lançou o supercomputador Deep Mind, trabalhando dados de milhares de pacientes para aprender sobre os sintomas e a evolução de doenças.

O carro-chefe da inteligência artificial aplicada à saúde tem sido os diagnósticos automatizados, mas a tecnologia também vem sendo aplicada em outros momentos, como é o caso do autocuidado. 

O futuro do setor da saúde passa pela junção do autocuidado (wearables) subsidiado pela inteligência artificial com a telemedicina , que usa tecnologias para fornecer informação e atenção médica a pacientes distantes.

Wearables ou dispositivos vestíveis, é o termo geral para um grupo de dispositivos móveis, como relógios, fones de ouvido, óculos de realidade aumentada e aparelhos para atividades físicas, projetados para serem utilizados como acessórios que permitem a coleta, armazenamento e envio de dados do paciente em tempo real ao médico, criando oportunidades de monitoramento  até então inéditas.

O que a inteligência artificial na medicina tem contribuído para os médicos e pacientes?

A telemedicina influencia diretamente o acompanhamento de pacientes, o intercâmbio de informações clínicas, a interpretação de resultados de exames, através de um serviço moderno e eficaz, que rompe com a barreira geográfica para agregar valor aos cuidados de saúde e ajudar a esclarecer dúvidas por meio da segunda opinião médica, sempre que necessário.

A telemedicina vem aproximando as pessoas no Brasil a partir da sua liberação em 2020 pelo Conselho Federal de Medicina com o intuito de ajudar na pandemia da Covid 19.

As áreas de saúde também têm se beneficiado de aplicativos com baixo valor de implementação que ajudam a comunicação entre clínicas médicas e pacientes além de estimular o autocuidado.

Um exemplo é o aplicativo gratuito que orienta como realizar o autoexame da mama, explicando a técnica, fornecendo um alarme para lembrar a data do próximo exame além de possuir um sistema dinâmico para anotar os resultados de exames realizados.

Assim como este aplicativo, temos inúmeros outros que ajudam a monitorar  o estresse, a hidratação, o sono, a dieta e a respiração.

Na ginecologia temos ainda aplicativos que monitoram as características do ciclo menstrual, do período fértil, do uso de contraceptivos. Em 2017, o FDA aprovou um aplicativo criado por uma cientista ganhadora do prêmio Nobel tão eficaz quanto o uso da pílula anticoncepcional.

No Brasil, foi criado o projeto de lei 21/2020 para regular o uso da Inteligência Artificial na medicina, definindo os direitos e deveres de empresas, pessoas físicas, poder público e clínicas que têm a intenção de utilizar essa tecnologia. 

Entre os fundamentos abordados na lei estão os direitos humanos; a pluralidade; a igualdade; a não discriminação; a livre iniciativa e privacidade, além da exigência de que o uso da IA seja o mais transparente possível, ou seja, que todos divulguem o modo de funcionamento e permitam o fácil acesso aos dados. 

O aval de autoridades da área médica, como Conselho Federal de Medicina (CFM), Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Informática em Saúde precisam ser solicitados.

Esse cuidado garante que a coleta, armazenamento e análise de dados mantenha informações sensíveis protegidas, garantindo o sigilo médico.  

O Hospital Albert Einstein em SP, foi um dos pioneiros no Brasil com aparelhos capazes de apontar doenças e encaminhar notificações automáticas, utilizando equipamentos que enviam sinais vitais diretamente para o prontuário médico.

A primeira cirurgia robótica do Brasil aconteceu no Hospital Albert Einstein no dia 30 de março de 2008, alguns meses depois da aquisição do primeiro sistema robótico (plataforma da Vinci).

Após 13 anos, o número de procedimentos vem crescendo gradativamente e se expandindo para diversas especialidades cirúrgicas. A prática, no entanto, carecia de normatização ética, principalmente em relação à capacitação, que hoje é oferecida por empresas detentoras dos robôs. 

Com a Resolução  CFM nº 2.311/2022, o CFM supre uma lacuna, estabelecendo regras para a capacitação dos profissionais e critérios para a realização das cirurgias.

No país, há atualmente 80 robôs para uso em procedimentos cirúrgicos urológicos, ginecológicos e cirurgia geral (cirurgia bariátrica e de hérnia) principalmente.

A aparência dessa plataforma é semelhante a de um “polvo” com três braços para os instrumentos cirúrgicos e um quarto braço para visualizar os órgãos, possibilitando ao cirurgião uma visão 3D dos órgãos do paciente. 

Dentre as vantagens da cirurgia laparoscópica com a plataforma robótica temos a diminuição da perda de sangue, o menor tempo de internação, cicatrizes menores devido a não necessidade de incisões amplas, a redução da dor e da necessidade de medicação prolongada, a recuperação mais rápida e com menos complicações e o menor risco de infecção.

As vantagens para o médico foram consideravelmente maiores ao proporcionar melhor visualização, movimentos mecânicos com maior grau de liberdade, diminuição da fadiga ou tensão nas articulações devido ao design ergonômico do robô, facilidade de treinamento com diminuição da curva de aprendizado cirúrgico e principalmente o fim dos improvisos cirúrgicos.

Dar um passo em direção a esse novo mundo abre uma série de oportunidades para consultórios, clínicas e hospitais desde que respeitados os princípios éticos, essas novas tecnologias tem tudo para acrescentar uma série de benefícios aos pacientes e médicos.

Impulsionados pela tecnologia 5G, várias perspectivas irão surgir, em especial o uso da computação cognitiva e da realidade virtual na medicina.

Existem desvantagens da inteligência artificial na medicina e no dia a dia?

Como toda tecnologia disruptiva, a inteligência artificial também possui pontos negativos como a dificuldade por parte de profissionais devido à descrença ou falta de familiaridade com a tecnologia. 

Uma pesquisa realizada em 12 países aponta que, com o avanço da confiança na tecnologia, 55% das pessoas aceitariam ser atendidas por um autómato com inteligência artificial no lugar dos médicos.

Não sei dizer quanto tempo vai levar para isto se consolidar mas a medicina de precisão ou medicina personalizada que é uma prática em que o foco está no paciente de forma individual, levando em consideração as diferenças genéticas, biológicas, entre outras é um futuro que já chegou e vai precisar cada vez mais destas novas tecnologias.

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Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular Fertilidade e Menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

Se você tem dúvidas ou quer sugerir temas para a coluna, envie e-mail para gustavo_safe@yahoo.com

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O médico e a Inteligência artificial

O médico e a Inteligência artificial

O médico e a Inteligência artificial

A inteligência artificial poderá ajudar o médico a ser mais competente e resolutivo sem abrir mão de ser sutil e humano, capacidades essenciais.

O mais recente estudo da Demografia Médica no Brasil, realizado em parceria da  Universidade de São Paulo (USP) e com a colaboração entre o Conselho Federal de Medicina (CFM), trouxe informações detalhadas sobre a população de médicos e seu exercício profissional.

Dados de 2020 mostram o Brasil com 2,4 médicos por mil habitantes, a mesma taxa do Japão, México e Polônia e muito perto do Chile (2,5), Estados Unidos (2,6), Canadá (2,7) e Reino Unido (2,8), embora abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que é de 3,4 por mil habitantes. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não possui um parâmetro específico e o  Governo Federal utiliza como referência a proporção encontrada no Reino Unido (2,8) que, depois do Brasil, tem o maior sistema de saúde público de caráter universal orientado pela atenção básica.

Entre 2010 e 2020, o país ganhou 180 mil novos médicos com um aumento superior ao crescimento da população em geral (1,7 para 2,4 por 1 mil habitantes).

Muito desse aumento se deu por causa da política de abertura deliberada de escolas médicas e pela expansão de vagas de graduação acentuada a partir de 2013 pela Lei Mais Médicos.

Em 2018 em Belo Horizonte tínhamos 17.906 médicos para 2,5 milhões de habitantes, o que dá uma razão de 7,09 profissionais por mil habitantes. 

Este dado mostra que precisamos que haja uma correção da distorção na distribuição dos profissionais entre interior e capital em Minas Gerais e em todo o Brasil.

Em janeiro de 2020, de todos os 478.010 médicos em atividade no Brasil, 61,3% deles possuíam um ou mais títulos de especialista, enquanto os outros 38,7% não tinham título em nenhuma especialidade.

Considerando apenas as 55 especialidades médicas oficialmente reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Médica Brasileira, tínhamos 11,3% em Clínica Médica, 10,1% em Pediatria, 8,9% em Cirurgia Geral, 7,7% em , 5,9% em Anestesiologia, 4,6% em Medicina do Trabalho, 4,1% em Ortopedia e traumatologia, 4,1% em Cardiologia, 3,6% em Oftalmologia e 3,3%  em Radiologia e Diagnóstico por Imagem. 

Quando se avalia a evolução do trabalho médico do Brasil, houve um aumento no número de horas trabalhadas por semana que geram um impacto negativo na qualidade de vida e na qualidade dos serviços e da assistência segundos dados de 2014 e 2019.

O percentual de médicos com quatro ou mais vínculos passou de 24% para 44% em cinco anos, com 32% trabalhando mais de 60 horas por semana em 2014 e 46%, em 2019, mantendo-se os mesmos índices de trabalho em consultório próprio e plantão.

Na realidade esse aumento da carga horária de trabalho foi visando uma manutenção de renda, pois segundo o estudo, a percepção foi de que em anos anteriores à pesquisa, eles tiveram remuneração reduzida, condições de trabalho pioradas e carga horária aumentada. 

Vale lembrar que são dados de antes da pandemia da Covid 19, que com certeza agravou este cenário. 

O futuro da medicina tem sido determinado pelos rumos do sistema de saúde, pelas escolhas individuais dos médicos, pelo mercado, pelas políticas públicas e atualmente pela inteligência artificial que pode melhorar a qualificação e a sobrecarga existente 

Um médico artificial conceitualmente seria um médico que não é natural, um médico dotado de inteligência artificial, um robô.

O conceito de inteligência artificial (I.A.) refere-se a um conjunto  de métodos voltados a construir um intelecto similar ao humano, isto é, capaz de aprender e realizar intervenções práticas.

Tudo acontece graças ao suporte de tecnologias como big data, machine learning e algoritmos sofisticados.

Estamos diante de um período da história em que as revoluções ocorrem com uma frequência quase diária, os avanços são cada vez mais rápidos e o que é moderno hoje pode se tornar ultrapassado semana que vem e obsoleto daqui a alguns meses. 

Há centenas de anos, a humanidade sonha com objetos dotados de certa inteligência, capazes de executar ações complexas e de pensar.

Surgida em meados dos anos 60, a popularmente chamada I.A. consistia em equipamentos, máquinas e robôs com capacidade de entender, processar e executar funções automatizadas, antes feitas apenas por pessoas. 

O ser humano apresenta uma capacidade de raciocinar com base nas suas percepções e sensações, assimilar esse pensamento, conectar com experiências anteriores e, por fim, executar uma tarefa. 

A ideia seria integrar essas capacidades em máquinas que ajudariam as pessoas em funções específicas ou até mesmo substituiriam pessoas em suas funções, liberando essa pessoa para outra tarefa mais complexa. 

Os especialistas afirmam que não vêm as máquinas substituindo os médicos, nem agora e nem no futuro e que essa não é a meta das aplicações de inteligência artificial na área da saúde, pois a inteligência artificial não substitui seres humanos em tarefas que exigem tomada de decisão. 

O que vai ocorrer é a substituição  da forma de realizar as tarefas, mudando o jeito como elas são feitas e desempenhadas.  

A inteligência artificial vai ser tornar assim  o novo estetoscópio dos médicos que precisam se reinventar, aprimorar e evoluir mais do que nunca.

Do smartwatch que registra os batimentos cardíacos e pode salvar vidas até um complexo algoritmo capaz de diagnosticar pacientes através da análise de exames, a tecnologia está cada vez mais presente no setor da saúde. 

Mais do que só tecnologia, a inteligência artificial vem sendo cada vez mais discutida e implementada na área, trazendo ganhos significativos.

Segundo dados do CB Insights, as centenas de startups de inteligência artificial que atuam no setor de saúde e movimentam bilhões desde 2013.

A palavra que define hoje a I.A. na medicina é suporte. Tal qual todos os exames que temos à disposição na prática clínica diária, os sistemas já conseguem ser precisos em avaliações.

Hoje, os software são capazes de diagnosticar pacientes em tempo recorde e com uma precisão maior do que a alcançada por médicos humanos – o que não significa que as máquinas estão substituindo os homens. 

As máquinas têm uma capacidade de processamento muito maior e não contam com o fator cansaço, o que faz com que os erros de diagnóstico sejam menores, ao mesmo tempo que apenas o ser humano tem uma sutileza na condução do diagnóstico que algoritmo nenhum consegue ter. 

Um ponto muito importante é que a inteligência artificial precisa da inteligência médica para ser assertiva e, de fato, inteligente. 

Para atingir feitos como o rápido e preciso diagnóstico, as máquinas precisam de uma grande base de dados para aprender e serem treinadas. 

Dentre esses dados, estão exames e prontuários médicos que pertencem ao paciente. Qualquer uso sem autorização prévia pode gerar punições na esfera legal.

De acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que entrou em vigor em agosto de 2021, informações relacionadas à saúde dos cidadãos são consideradas dados pessoais sensíveis, o que exige um maior cuidado por parte dos coletores e tratadores de informações. 

O uso compartilhado desse tipo de informação com objetivo de obter vantagem econômica, por exemplo, é vedado pela lei. 

Em um cenário futuro, especialistas acreditam que as pessoas farão uma espécie de doação de dados como fazem doação de sangue hoje em dia.

No Brasil, foi criado o projeto de lei 21/2020 para regular o uso da Inteligência Artificial na medicina. O texto visava definir os direitos e deveres de empresas, pessoas físicas, poder público e clínicas que têm a intenção de utilizar essa tecnologia. 

Entre os fundamentos abordados na lei estão os direitos humanos, a pluralidade, aigualdade, a não discriminação, a livre iniciativa e a privacidade.

Apesar do I.A. ter o potencial de melhorar quase todos os aspectos do setor de atendimento em saúde, muitos médicos ainda são céticos sobre o que vai acontecer.  

O ceticismo tem origem nas preocupações que esses tipos de mudança podem resultar no fim da relação médico-paciente e na perda da vocação da medicina como nós conhecemos. 

Teoricamente, a partir do momento que as tarefas repetitivas forem automatizadas por soluções baseadas em IA, os médicos teriam mais tempo para atividades de mais alto valor agregado, como falar com pacientes sobre seu diagnóstico e discutir as diversas opções de tratamento com mais calma. 

Infelizmente os planos de saúde, os consórcios, hospitais e empresas de saúde não parecem estar preocupados com a vocação e valorização do médico.

Claro que ainda não existem robôs capazes de substituir o trabalho médico em sua totalidade mas é inegável  que isto irá acontecer, mas a questão ainda é mais ética e menos tecnológica.

Quando você vai ao médico, você está colocando sua vida sob responsabilidade de outra pessoa. Os softwares não têm esse comprometimento  e nem são capazes de responder por isso.

Humanos são muito bons em estabelecer conexões emocionais, expressar empatia, e dar diagnóstico centrado no paciente e estratégias de tratamento adequadas.

A inteligência artificial vai nos ajudar cada vez mais a individualizar os tratamentos.

O que a medicina precisa é que  a Inteligência artificial e a inteligência médica andem lado a lado, de mãos dadas com o médico como um verdadeiro maestro destas novas tecnologias.

Leia também: Melatonina, uma luz na escuridão

Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular Fertilidade e Menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

Siga o Centro Avançado em Endometriose nas redes sociais para ver informações e dicas sobre a saúde da mulher.

Desafio da Reprodução Assistida na endometriose intestinal

Desafio da Reprodução Assistida na endometriose intestinal

Desafio da Reprodução Assistida na endometriose intestinal.

A Reprodução Assistida têm o papel de auxiliar na resolução dos problemas de infertilidade humana. É possível realizar a técnica mesmo com endometriose?

Endometriose é a presença de endométrio, epitélio que reveste a cavidade interna do útero fora do útero infiltrando os órgãos da pelve e abdome como o intestino por exemplo.

Com o avanço nos conhecimentos e a melhora dos equipamentos de imagem, o diagnóstico clínico passou a ter  enorme relevância ficando para a cirurgia apenas o papel de confirmar, estadiar e tratar a doença em mulheres sintomáticas.

Endometriose provoca infertilidade segundo dados da literatura com acometimento intestinal cada vez mais presente.

A endometriose deve ser considerada como um problema sistêmico em relação às questões reprodutivas independente de onde esteja com principais mecanismos de infertilidade a distorção anatômica, a diminuição da reserva ovariana, a baixa qualidade oocitária e embrionária, a implantação deficient com fluido peritoneal citotóxico na função dos espermatozóides e na sobrevivência do embrião.

Várias metanálises mostram que as mulheres com endometriose submetidas a Fertilização In Vitro apresentam piores taxas de fecundação, maior taxas de perdas gestacionais, menores taxas de implantação e taxa aumentada de complicações obstétricas em relação às mulheres sem endometriose.

A cirurgia é importante no tratamento da endometriose, restabelecendo  a anatomia,  aliviando a dor e diminuindo a resposta inflamatória, principalmente após o advento da laparoscopia com imagens em 3D, resolução 4k que com um melhor planejamento cirúrgico com equipe multidisciplinar possibilitou abordagens até então pouco realizadas.

A ESHRE através dos seus guidelines mais antigos coloca que a eficácia da cirurgia da endometriose antes da FIV não estaria bem estabelecida.

Um artigo (*) publicado no JMIG em 2021,  Impact of Surgery for Deep Infiltrative Endometriosis before In Vitro Fertilization: A systematic Review and Meta-analysis” mostrou que existem evidências suficientes para mostrar o papel da  cirurgia da endometriose antes da FIV.

Grande parte dos cirurgiões (geral, coloproctologista e oncológico) não tem formação em infertilidade e muito menos são especialistas na endometriose. 

Da mesma forma, vários centros de reprodução humana não têm protocolos específicos para endometriose por acreditarem que a FIV seja soberana e não agrava os sintomas, não acelera a sua progressão ou aumenta a sua recorrência. Muito diferente do que vivenciamos na prática.

Nós médicos não temos obrigação de fim e sim de meio, ou seja, precisamos informar e oferecer o melhor,  mais seguro  e com melhores resultados.

A Fertilização In Vitro não é tratamento de endometriose!

Ela é uma ferramenta muito importante na abordagem da infertilidade em qualquer paciente, ainda mais com endometriose.

Na busca por respostas às vezes precisamos esquecer as generalizações e traçar limites: Como proceder com uma paciente infértil com endometriose no reto (2 cm e 30% da circunferência)?

Um ponto a favor da FIV seria no caso de paciente assintomática, sem dor. Será que existe endometriose intestinal assintomática? Análise difícil como separar o joio do trigo.

Outro ponto a favor da FIV  na vigência de sintomas seria a eficácia do bloqueio prolongado da endometriose por 3-6 meses (com análogo do Gnrh) com melhora em até 4 vezes dos resultados de gravidez. 

Em contrapartida,  perderíamos menos tempo com a realização de uma cirurgia completa da endometriose, sem contar com os efeitos semelhantes à menopausa provocados pela medicação.

Diante da questão tempo, pode-se propor uma coleta de óvulos com fertilização de embriões que serão congelados e transferidos após a cirurgia. 

Apesar do aumento do número de clínicas de reprodução assistida os valores são elevados, as medicações caras e os procedimentos não são contemplados pelos planos de saúde e muito menos pelo SUS.

Publicada no D.O.U dia 19.11.92-seção I, página 16053, as normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida  tem como um dos princípios gerais:

 “As técnicas de Reprodução Assistida (RA) têm o papel de auxiliar na resolução dos problemas de infertilidade humana, facilitando o processo de procriação quando outras terapêuticas tenham sido ineficazes ou ineficientes para a solução da situação atual de infertilidade”

Cirurgia deve ser primeira linha diante do envolvimento intestinal pela endometriose com significância estatística (OR-2,43) conforme artigo citado (*).

Embora a razão exata da melhora possa trazer dúvidas, o restabelecimento da anatomia favorece e muito a punção e coleta ovular. 

Um eventual dano a reserva ovariana depende do procedimento realizado e do cirurgião. Aí temos um problema na escassez de serviços capazes de realizar esta cirurgia com mínimos danos e máximos benefícios independente da forma de remuneração (planos de saúde, SUS ou particular).

 As complicações obstétricas são mais frequentes em pacientes de reprodução assistida e agravadas na presença da endometriose. 

A gravidez também não é tratamento da endometriose. Algumas mulheres têm a doença controlada durante a gestação mas com riscos obstétricos elevados.

Alguns desses riscos são a placentação anômala, abortos espontâneos, pré-eclâmpsia, retardo de crescimento intra-uterino, placenta prévia, descolamento prematuro de placenta, hemorrágias anteparto, parto prematuro, ruptura uterina, cesariana, recém-nascido de baixo peso, natimorto e hemorragias pós-parto.

Postergar cirurgia aumenta morbidade e mortalidade, mesmo em pacientes sem menstruar devido aos risco de perfuração intestinal ou obstrução conforme alguns raros relatos na literatura.

Não podemos esquecer que a cirurgia e a FIV também apresentam taxas de complicações que não podem ser negligenciadas.

Na FIV temos hiperestímulo em até 7%,  sangramento em 1,3%, infecção em 0,9% e piora da endometriose em 0,4% conforme artigo(*).

Na cirurgia, as complicações maiores e menores variam de 3 a 7% em função da gravidade da doença e do serviço onde é realizada.

O último ponto a ser considerado são os fatores prognósticos como a idade, a reserva ovariana, a paridade e o fator masculino que têm pesos diferentes mas ajudam na seleção daquelas pacientes que se beneficiaram mais rapidamente da reprodução assistida! 

O contraponto vem da necessidade do bom senso médico prevalecer em priorizar a fertilização in vitro sem falhas da cirurgia ou priorizar a cirurgia sem falhas de FIV!

A mulher moderna de hoje tem mais conhecimento devido a globalização e é muito mais exigente que a mulher do passado na sua busca por resultados.

Precisamos conciliar a medicina baseada em experiência e a medicina baseada em evidência com a medicina baseada em inteligência.

Em um futuro próximo, a inteligência artificial (computador) vai nos ajudar a analisar todas as variáveis de uma pessoa, selecionando não necessariamente o melhor estudo com as melhores evidências e sim o que melhor atende aquela paciente de forma individualizada.

Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular fertilidade e menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

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Meditação e mindfulness na endometriose

Meditação e mindfulness na endometriose

(foto: Pexels)

Meditação e mindfulness na endometriose

Atualmente palavras como mindfulness (atenção plena) e meditação estão se tornando frequentes na abordagem da endometriose.

A endometriose é uma doença enigmática que interfere na qualidade de vida e equilíbrio de cerca de seis milhões de mulheres brasileiras em idade fértil.

Mas porquê algumas mulheres desenvolvem a endometriose e outras não? O que pode definir a gravidade da doença e a sintomatologia? Porque temos doenças semelhantes com manifestações diferentes e respostas diversas?

A medicina tem investigado todas estas perguntas, mas as teorias que associam a doença a fatores imunológicos, hormonais e/ou genéticos não conseguem explicar tudo. Alguns estudos apontam, inclusive, para perfis de comportamento mais propensos a desenvolver, como mulheres modernas que trabalham demais e colocam a carreira acima de qualquer necessidade, retardando a maternidade.

Diante disto, a teoria que consegue melhor explicar estas questões é a epigenética,  uma ciência que busca compreender as mudanças reversíveis na expressão gênica, ou seja, os componentes que podem modificar como os genes são lidos sem alterar a sequência de nucleotídeos do DNA. 

As modificações epigenéticas podem ser transmitidas ao longo das gerações, sendo herdadas no momento da divisão das células, atuando na formação de diferentes fenótipos entre os indivíduos.  

Conheça os benefícios da meditação para a saúde

Os benefícios da meditação para a saúde física e mental são a redução de estresse, a diminuição de sintomas depressivos, o controle da ansiedade, a potencialização do autoconhecimento e da autoestima, o desenvolvimento do foco nas atividades, a redução da perda da memória, a ampliação das emoções positivas e a redução de vícios.

Em um artigo de revisão   “ O impacto do Mindfulness no controle da expressão gênica: uma revisão integrativa”  mostrou o impacto da meditação e mindfulness nas células imunes e marcadores inflamatórios relacionados ao estresse.

Mindfulness é meditação, mas meditação não é mindfulness!

Os mais críticos dizem que mindfulness é meditação de americano, estilo fast-food. Quem a defende, afirma que é um treino mental e traz os benefícios da prática milenar de forma laica, para o homem moderno.

Ensinamentos de Buda o termo mindfulness foi cunhado em 1979 pelo professor Jon Kabat Zinn, na Universidade do Massachusetts, nos EUA, onde também foram feitos os primeiros estudos em pacientes que sofriam com dores crônicas. 

Adepto do budismo zen, Kabat Zinn sistematizou algumas técnicas que aprendeu após anos de meditação e ioga. 

Mindfulness é essencialmente uma tomada de consciência do que está surgindo momento a momento, o que naturalmente inclui a prática da meditação. 

Quando você está sendo consciente intencionalmente, está percebendo e prestando atenção a pensamentos, sentimentos, comportamentos e movimentos, e também aos efeitos dessas experiências em você, nas relações que você tem e nas situações de vida que você esteja vivendo.

Mindfulness seria o tornar-se consciente ao invés de fazer coisas simplesmente no automático, alimentando porventura padrões de pensamentos que influenciam no bem estar emocional e mental.

A meditação normalmente se refere a uma prática formal de meditação, geralmente praticada com a pessoa sentada ou deitada em uma superfície. 

Existem muitos tipos de meditação como a meditação da consciência da respiração, meditação da bondade amorosa, meditação com foco em repetição de mantras, meditação com visualização, meditação baseada em repetição de sons, etc.

A meditação é uma prática intencional, onde você se concentra para aumentar a concentração, desenvolver uma atitude de calma e serenidade, e muito provavelmente desenvolver uma capacidade de equilíbrio ou inteligência emocional. 

O autoconhecimento é a maneira que temos para entender a nós mesmos em todas as esferas da vida, permitindo que você descubra suas qualidades, capacidades, bem como seus pontos que devem ser melhorados, facilitando a compreensão  do que você tem e realmente precisa.

O diagnóstico tardio da endometriose assim como o diagnóstico precoce podem ser prejudiciais e estigmatizantes nos dias de hoje. Definir o momento preciso e ajustar o equilíbrio entre fazer menos e mais deve ser o desafio. 

Neste contexto entra o equilíbrio emocional e a inteligência emocional necessárias ao médico e ao paciente.

Equilíbrio emocional é quando se tem consciência de todo o processo emocional, permitindo reconhecer, nomear e transformar nossas experiências emocionais sem transferir a responsabilidade sobre nossos sentimentos e sensações.

A inteligência emocional é um conceito da psicologia usado para designar a capacidade do ser humano de lidar com as emoções. 

Já imaginou o que acontece com as mulheres ao receberem o diagnóstico de endometriose neste mundo globalizado? 

Elas vão imediatamente encontrar na internet informações de que a endometriose é uma doença que não tem cura, ou que o seu tão sonhado desejo em ser mãe pode estar comprometido e que vai ter que se acostumar a sentir dor ou usar remédio durante toda a sua vida. 

Se continuar pesquisando sobre o tratamento, vão perceber  que caso precisem de cirurgia, ela provavelmente não será única, com risco de colocação de bolsa protetora mesmo se realizada com os melhores profissionais  em grandes centros de forma particular com cirurgias que variam de 20 a 50 mil reais.

Ninguém está preparado para isto!

É verdade que temos muita informação e desinformação associada a endometriose e é por isso que a portadora de endometriose não pode perder o foco, pois estes e outros fatores geram um alto estresse psicológico que são capazes de potencializar os danos provocados pela endometriose  gerando um ciclo vicioso, em especial nos quadros dolorosos.

Em um artigo “ A Single-blind, randomized, pilot study of a brief mindfulness-based intervention for the endometriosis-related pain management de um grande amigo (Dr Marco Aurélio Pinho de Oliveira e cols) especialista da endometriose parece ser um dos primeiros neste formato randomizado a mostrar de forma objetiva o benefício da intervenção baseada em mindfulness no manejo da dor. 

Os resultados mostraram que a intervenção ajudou  a trabalhar a dimensão afetiva da dor, com necessidade de focar e valorizar experiências positivas e prazerosas mesmo com dor, embora tenha ajudado pouco na percepção da redução do estresse pelo paciente.

A  melhora da dismenorreia (cólica menstrual) e da dispareunia (dor na relação sexual) não tiveram impacto significativo no trabalho.

Ansiedade e estresse interferem negativamente em qualquer quadro de dor crônica (não são privilégio da endometriose) e alteram negativamente a percepção que as pessoas têm de si mesmas e da própria dor. 

É necessário avaliar caso a caso, e verificar o que veio primeiro: os sintomas psicológicos ou a dor crônica e demais desconfortos trazidos pela endometriose? 

A prevalência de depressão em pessoas com doenças crônicas é alta e também foi constatada nas portadoras de endometriose, acometendo principalmente as que referem dor crônica e constante (aproximadamente 80%).

Leia também sobre o perfil psicológico da mulher com endometriose

A cada dia percebo a importância de se utilizar todas as ferramentas disponíveis no tratamento das doenças sem precisar dividir a origem das terapias uma vez que os conceitos do oriente podem beneficiar e muito a ciência e a medicina convencional do ocidente.

O mindfulness que tem raízes fortes no passado, está mais do que nunca atual e pode ajudar a resetar a nossa vida neste terceiro milênio , iluminado caminhos de atenção plena  a uma vida mais mindful.

Orientação à família (especialmente ao parceiro), grupos de apoio, psicoterapia, atividade física, práticas de relaxamento e controle da dor são algumas opções de estratégias para lidar com os sintomas e buscar maior qualidade de vida.

Precisamos sim ter um embasamento mínimo para nos nortear sem esquecer conceitos tentando sempre agregar e não separar.

Gustavo Safe é diretor e médico especialista em endometriose no Centro Avançado em Endometriose e preservação da fertilidade, Clínica Ovular fertilidade e menopausa e Instituto Safe. Estudioso dos assuntos relacionados à saúde da mulher com enfoque na dor pélvica, infertilidade, preservação da fertilidade, endometriose, endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas.

Siga o Centro Avançado em Endometriose nas redes sociais para ver informações e dicas sobre a saúde da mulher.

Olá! Precisa de ajuda?